sábado, 19 de janeiro de 2013

Adele


Trimmmmm, Trimmmmmm
- Alô! Timbaland falando.
_ Olá Timbaland, é Adele, tudo bem?
Silêncio.
_ Adele?
_ Sim.
_ Adele, a cantora?
_ Sim.
_ Humm, ok... Tipo, que posso ajudá-la?
_ Quero que você produza meu próximo álbum.
Mais silêncio.
_ Como?
_ Você ouviu.
_ Mas... Adele... meu estilo não é exatamente parecido com o seu.
_ Eu sei.
_ Você é a rainha do melodrama.
_ Pois é.
_ Todo mundo chora te ouvindo. Tema de single bar. Meu negócio é outro.
_ É, mas quero mudar. Cansei dessas músicas humilhantes. "Vou encontrar alguém como você", "Lembre-se da razão que me amou"... Bla, bla, bla. Chega! Quero ser pop, quero ser dance. Quero tocar na balada. Quero ser musa dos gays.
- Ok...
- Quero videoclipes bem lascivos.
Silêncio quase eterno.
_Timba?
_ Ok, ok, ok... mas, não me leve a mal. Não acho uma boa idéia. Seu público pode não gostar dessa revolução.
_ Timba. Já ganhei milhões, estou há MESES na Billboard. Ganhei o Grammy. Agora quero me divertir.
_ Não sei...
_ Como assim "não sei"? Se aquela portuguesa fez um CD promiscuo, eu também posso.
_ A Nelly é canadense.
_ Não importa.
_ A Nelly é meio mutante. Não sei se serve com você.
- Você é o mágico, Timba.
Timbaland pensa.
- Bem... vai ser um choque.
_ Quero chocar. A Gaga vai ter que usar muuuuuito vestido de carne para chamar mais atenção que eu.
Timbaland tamborila na mesa.
- Digamos que eu aceite. Você vai ter que perder uns 40 quilos para ser a nova vadia pop.
Risada histérica de Adele. Silêncio controlado do outro lado da linha.
_ Ah, Timba. Tenho tudo planejado. Vou ficar esquelética em poucos meses. Nem que eu viva de soro fisiológico.
Sorriso do Timba.
- Ok eu topo. Pode ser interessante.
Adele cruza as pernas depois da vitória.
- Obrigada Timba! Já tenho os primeiros singles prontos: "Tongues like Snakes", "Dance Skinny Dance", e "I Kissed a Girl...There"
Adele desliga. Vai na cozinha e joga um pedaço de lasanha no lixo. Sorri.
"Hummm, agora quero ver se ele não volta para mim."

sábado, 12 de janeiro de 2013

Holly Free


Johnny Bright olhou mais uma vez no reflexo cinza do celular. O que ele via agora era uma pele pálida e cinzenta, sem brilho. Ok – deve ser a cor do vidro fumê. Mas não, era outra coisa. Algo estava tirando o saudável tom bronzeado de anos antes, algo que ele não havia percebido até hoje.

Talvez fosse a falta do que fazer que fazia Bright ver demais nas células de sua epiderme, enquanto esperava a namorada chegar para uma breve visita. O bar de sempre estava meio cheio como a metade do copo de cerveja, daquelas mais modestas mas boa o suficiente para uma garganta seca. Seca, mais um sinal estranho.

A namorada vinha vê-lo depois de semanas de sumiço estarrecedor. Pensou que ela tivesse sido levada por uma máquina do tempo e voltado para 1985 mas o caso era mais simples, alguém mais esperto deveria ter dado um tapa na cara dele, daqueles que fazem o som de “acorda”! Simples o bastante para agitar qualquer rapaz ajuizado. Mas apenas ficou feliz em ouvir a voz dela hoje e mais feliz ainda quando aceitou vê-lo hoje. Num transe hipnótico de felicidade o juízo tinha ficado lá para trás...

Esqueceu por um minuto o celular que não fazia mais nenhum ruído há uns 6 minutos e olhou em volta. Um casal reluzente demais à esquerda, um gordinho de olhos injetados à direita segurando uma garrafa de conhaque e revirando nos dedos uma aliança. O restante dos humanos em volta não chamou sua atenção.

Bright lembrou do quanto sua namorada era linda quando ela apareceu de supetão na porta do boteco vagabundo que harmonizava com pessoas e baratas cascudas no mesmo grau de importância. “Aquilo não era lugar para ela” fez uma nota mental. Instantaneamente sua alma liberou o sorriso mais branco entre os tons de amarelo existentes. Bright não tinha o sorriso mais brilhante do mundo.

Um tempo um tanto longo depois ela permitiu que o abraço de Bright a atingisse. “Que saudade, amor!” – disse Bright, um tom mais abaixo que um sussurro para que a certeza que apenas ela ouvisse se revelasse. Saudade que fez seus braços deslizarem para baixo sua camisa leve de seda cáqui e revelando um biquíni de oncinha por baixo. Um biquíni que ele conhecia e odiava. Que ele havia comprado erroneamente com uns dois números mais sensuais do que uma moça de família deveria usar. Tudo porque seus óculos de 5 graus de miopia tinham se espatifado no chão no dia que resolveu comprar o presente. Não se espatifou pela queda, mas por um carrinho de feira desgovernado guiado por uma senhora distraída pelos preços exorbitantes da batata.

Ela mal reparou em Bright, voltada sua atenções para o próprio telefone, olhando para ele em estado de graça, lendo coisas que talvez só ela entendesse.

“Bright, só vim te dar um abraço. Vou à praia com as amigas. Um beijo.”

E sumiu do bar do mesmo jeito que entrou. Talvez de volta para os anos 80.
Alguns segundos de total apatia – como quando o sortudo da mega sena confere os seis números vencedores. “Como assim?” Só lembrou de pegar uma caixinha vermelha, uma garrafa recém aberta e correr para a rua. Ver seu amor sumir aos poucos, diminuindo cada vez mais a cada passo e sem nunca olhar para trás. Praia? Amigas? Oncinha?

“Ploft!!!!” O tapa muito atrasado veio do nada de um amigo invisível. Ele compreendeu que nunca a tinha tido. Não importavam quais amigas do sexo masculino a tinham levado. Ela nunca tinha estado ali. Os momentos de filmes para mocinhas que tinham visto – quanto ele gostava de comedia pastelão ou documentários sobre a Segunda Guerra – ou as noites de sexo despudorado em hotéis cafonas ou os jantares em lanchonetes da moda tinham sido na verdade apenas 10% de toda essa frase corrente. Momentos.

A compreensão levou Bright a sofrer e chorar calado no meio da rua, sem emitir um som. Algumas das pessoas perdidas na noite não estranharam mais um cara saído de um bar com os olhos vermelhos. O gordinho chapado de conhaque se aproximou e ofereceu um gole, aceito de pronto. “Coitado, mais derrotado do que eu.” pensou o gordinho que finalmente se sentiu preparado para sair e buscar a esposa na sogra. A aliança já estava em seu devido lugar.

Minutos e horas depois, no inicio de uma madrugada sem estrelas, Bright olhou para outra namorada em suas mãos. A que morava na caixinha rubra. Uma magrela de cabelos ruivos escaldantes mas que em pouco tempo seria de cabelos negros sem vida. Ela era Holly, podia ser Free. Essa verdadeira paixão de muitos anos. Antes da “Oncinha”. E percebeu, talvez pelo tapa ainda ecoando em seu maxilar, que os sinais de desgaste em sua pele, a secura em sua boca e os traços amarelados na arcada dentaria tinham um nome.

Entendeu mais uma vez algo o tempo todo em sua cara como uma luz vermelha de um cabaré. A noite de glória para o cego que enfim enxerga a luz de um poste. Era hora de dizer goodbye para o caso antigo. O caso de tantos e tantos jovens que sonhavam ser como o surfista sarado. Que curtiam “o Sucesso!” de Winger, Scorpions, Kansas, King Kobra, Survivor... Ela o estava devorando aos poucos depois de seduzi-lo. Uma dança esfumaçada e erótica, mas barata – como a cerveja quente no asfalto. Johnny não deixaria que outra dançarina o entorpecesse. Johnny não era “Bravo” mas podia ser obstinado.

Pisaram em seu coração. Hora de pisar na caixinha. Hoje?