Johnny Bright
olhou mais uma vez no reflexo cinza do celular. O que ele via agora era uma
pele pálida e cinzenta, sem brilho. Ok – deve ser a cor do vidro fumê. Mas não,
era outra coisa. Algo estava tirando o saudável tom bronzeado de anos antes,
algo que ele não havia percebido até hoje.
Talvez fosse
a falta do que fazer que fazia Bright ver demais nas células de sua epiderme,
enquanto esperava a namorada chegar para uma breve visita. O bar de sempre
estava meio cheio como a metade do copo de cerveja, daquelas mais modestas mas
boa o suficiente para uma garganta seca. Seca, mais um sinal estranho.
A namorada
vinha vê-lo depois de semanas de sumiço estarrecedor. Pensou que ela tivesse
sido levada por uma máquina do tempo e voltado para 1985 mas o caso era mais
simples, alguém mais esperto deveria ter dado um tapa na cara dele, daqueles
que fazem o som de “acorda”! Simples o bastante para agitar qualquer rapaz
ajuizado. Mas apenas ficou feliz em ouvir a voz dela hoje e mais feliz ainda
quando aceitou vê-lo hoje. Num transe hipnótico de felicidade o juízo tinha
ficado lá para trás...
Esqueceu por
um minuto o celular que não fazia mais nenhum ruído há uns 6 minutos e olhou em
volta. Um casal reluzente demais à esquerda, um gordinho de olhos injetados à
direita segurando uma garrafa de conhaque e revirando nos dedos uma aliança. O
restante dos humanos em volta não chamou sua atenção.
Bright
lembrou do quanto sua namorada era linda quando ela apareceu de supetão na
porta do boteco vagabundo que harmonizava com pessoas e baratas cascudas no
mesmo grau de importância. “Aquilo não era lugar para ela” fez uma nota mental.
Instantaneamente sua alma liberou o sorriso mais branco entre os tons de
amarelo existentes. Bright não tinha o sorriso mais brilhante do mundo.
Um tempo um
tanto longo depois ela permitiu que o abraço de Bright a atingisse. “Que
saudade, amor!” – disse Bright, um tom mais abaixo que um sussurro para que a
certeza que apenas ela ouvisse se revelasse. Saudade que fez seus braços
deslizarem para baixo sua camisa leve de seda cáqui e revelando um biquíni de
oncinha por baixo. Um biquíni que ele conhecia e odiava. Que ele havia comprado
erroneamente com uns dois números mais sensuais do que uma moça de família
deveria usar. Tudo porque seus óculos de 5 graus de miopia tinham se espatifado
no chão no dia que resolveu comprar o presente. Não se espatifou pela queda,
mas por um carrinho de feira desgovernado guiado por uma senhora distraída
pelos preços exorbitantes da batata.
Ela mal
reparou em Bright, voltada sua atenções para o próprio telefone, olhando para
ele em estado de graça, lendo coisas que talvez só ela entendesse.
“Bright, só
vim te dar um abraço. Vou à praia com as amigas. Um beijo.”
E sumiu do
bar do mesmo jeito que entrou. Talvez de volta para os anos 80.
Alguns
segundos de total apatia – como quando o sortudo da mega sena confere os seis
números vencedores. “Como assim?” Só lembrou de pegar uma caixinha vermelha,
uma garrafa recém aberta e correr para a rua. Ver seu amor sumir aos poucos, diminuindo
cada vez mais a cada passo e sem nunca olhar para trás. Praia? Amigas? Oncinha?
“Ploft!!!!” O
tapa muito atrasado veio do nada de um amigo invisível. Ele compreendeu que
nunca a tinha tido. Não importavam quais amigas do sexo masculino a tinham
levado. Ela nunca tinha estado ali. Os momentos de filmes para mocinhas que
tinham visto – quanto ele gostava de comedia pastelão ou documentários sobre a
Segunda Guerra – ou as noites de sexo despudorado em hotéis cafonas ou os
jantares em lanchonetes da moda tinham sido na verdade apenas 10% de toda essa
frase corrente. Momentos.
A compreensão
levou Bright a sofrer e chorar calado no meio da rua, sem emitir um som. Algumas
das pessoas perdidas na noite não estranharam mais um cara saído de um bar com
os olhos vermelhos. O gordinho chapado de conhaque se aproximou e ofereceu um
gole, aceito de pronto. “Coitado, mais derrotado do que eu.” pensou o gordinho
que finalmente se sentiu preparado para sair e buscar a esposa na sogra. A
aliança já estava em seu devido lugar.
Minutos e
horas depois, no inicio de uma madrugada sem estrelas, Bright olhou para outra
namorada em suas mãos. A que morava na caixinha rubra. Uma magrela de cabelos
ruivos escaldantes mas que em pouco tempo seria de cabelos negros sem vida. Ela
era Holly, podia ser Free. Essa verdadeira paixão de muitos anos. Antes da
“Oncinha”. E percebeu, talvez pelo tapa ainda ecoando em seu maxilar, que os
sinais de desgaste em sua pele, a secura em sua boca e os traços amarelados na
arcada dentaria tinham um nome.
Entendeu mais
uma vez algo o tempo todo em sua cara como uma luz vermelha de um cabaré. A
noite de glória para o cego que enfim enxerga a luz de um poste. Era hora de
dizer goodbye para o caso antigo. O
caso de tantos e tantos jovens que sonhavam ser como o surfista sarado. Que
curtiam “o Sucesso!” de Winger, Scorpions, Kansas, King Kobra, Survivor... Ela
o estava devorando aos poucos depois de seduzi-lo. Uma dança esfumaçada e
erótica, mas barata – como a cerveja quente no asfalto. Johnny não deixaria que
outra dançarina o entorpecesse. Johnny não era “Bravo” mas podia ser obstinado.
Pisaram em
seu coração. Hora de pisar na caixinha. Hoje?
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